Sacola de feira

postado em: Vida na França | 4

Quando criança, e durante anos à fio, meus avós mantiveram uma rotina aos sábados que lhes era cara e um tanto sagrada. Acordavam cedo, preparavam o café da manhã – meu avô tinha uma predileção em degustar iguarias que ele mesmo inventava, e aos sábados de manhã ele preparava um mingau esquisito mas bem gostoso que levava farinha de milho, queijo canastra, um pouco de café, noz moscada e outros ingredientes dos quais não me lembro – e depois de devidamente arrumados – minha avó impecavelmente bem vestida, maquiada e cheia de acessórios, tudo harmoniosamente escolhido, sempre recebia elogios por onde passava – colocavam a sacola de feira e o carrinho no porta-malas do carro e saíam em direção ao Mercado Central, em Belo Horizonte. E eu, enquanto criança que deveria ficar sob a supervisão de adultos, os acompanhava, pois minha mãe trabalhava aos sábados e o lindo do meu irmão (dizem que os caçulas são mais sociáveis e confirmo, meu nível de sociabilidade é de uma ostra comparado ao do meu irmão, 5 anos mais novo), arroz doce de festinha desde o berçário, sempre ia pra casa de algum coleguinha. Tudo bem, exagero um pouco, não ia com eles todo santo sábado, mas me lembro de ter ido com certa frequência e de achar o passeio um tanto… chato.

Claro que, do auge da minha criancice, eu não entendia a dimensão do que meus avós, sem portanto me dizer palavra do assunto, estavam a me ensinar, e não sei bem ao certo se eles mesmos tenham consciência de que me ensinavam algo. Lá ia eu, achando o programa de sábado a coisa mais entediante do mundo, enquanto os dois enchiam seu carrinho de compras e renovavam os assuntos com cada um dos feirantes. Porque, além de comprar os legumes, temperos e outros produtos, eles conheciam cada um e tinham que colocar o assunto da semana em dia, pro meu desespero. Terminada a rodada no mercado, onde eram comprados legumes, frutas e biscoitos (nessa hora eu bem que me alegrava, ajudava minha avó a escolher e tinha privilégios neste quesito) e tantos outros produtos, chegava a hora do almoço, em algum restaurante na região central de Belo Horizonte. Depois disso, na volta pra casa, se algum produto que não pudesse ter sido comprado no mercado faltava, era no supermercadinho do bairro que eles paravam, onde também conheciam os caixas, o gerente, os donos do estabelecimento. Claro que durante minha adolescência, já morando na casa dos avós, minha participação nesse ritual se restringia em ajuda-los à tirar as compras do carro e guarda-las na dispensa. E tão logo comecei a trabalhar e comprar meus próprios quitudes praticamente semi-prontos : legumes devidamente picados e empacotados à vácuo, dentre outras coisas. E então, me mudei pra França. Não foi a mudança de país que me fez mudar de perspectiva, foi a mudança de posição, deixamos de encontrar tudo devidamente escolhido e organizado na geladeira/dispensa e passamos à ser eu e Bernardo os responsáveis por abastecer nossa dispensa e geladeira com aquilo que escolhemos – não, pacotes de biscoitos com recheios de todos os sabores não pulam das prateleiras e diretamente pro nosso carrinho de supermercado.

E dia desses, numa daquelas coincidências que o acaso nos proporciona, estacionei minha bicicleta no centro, resolvi minhas pendências e quando voltei até meu meio de transporte me vi no meio da feira, cercada por legumes, frutas, verduras, e todos aqueles produtos que meus avós iam buscar no mercado central (todos não, porque os regionalismos impõem certas barreiras). E já que eu estava ali, no meio da feira, com tempo pra matar, decidir dar uma olhada. E sai de lá com a sacola cheia de legumes que precisava em casa – e beterrabas cruas, coisa que não encontrava nos supermercados daqui, só as cozidas, vai saber porque – além de bananas. As bananas foram o momento mágico do dia : escolhi uma penca, entreguei ao feirante, que pesou e me informou o preço, e antes de me entregar a sacola, colocou mais meia penca lá dentro, « pela sua gentileza ». Isso porque eu disse « Bonjour » duas vezes a ele : uma quando parei a bicicleta e passei por lá, outra quando fui escolher minhas frutas. Nesse momento eu entendi os motivos dos meus avós preferirem ir ao mercado central aos sábados : num supermercado, os atendentes, por mais educados que sejam, não podem nos fazer agrados e arredondar um valor pra baixo, nem nos oferecer produtos a mais. 

Voltei pra casa pensando sobre o feirante das bananas e o feirante das batatas e beterrabas (que arredondou pra baixo o valor), e também nos meus avós, que estão lá na minha Belo Horizonte e que não lêem este blog. Talvez sem querer, certamente sem dizer, o que eles me mostravam durante minha infância, nesse momento que hoje parece ter sido tão banalizado e às vezes relegado a um nível tão incômodo que temos a opção de delegar a outrem a atividade (quase todo supermercado tem o serviço de entrega em domicílio), o que os « velhinhos » me mostravam e eu só fui perceber agora, é que devemos cultivar os pequenos prazeres da vida. Não condeno os legumes picados e embalados à vacuo, nem os serviços que dispensam a presença no supermercado, pelo contrário. Mas a que ponto aquilo que dizemos simplificar nossa vida acaba por nos privar justamente da simplicidade das coisas? E agora, anos depois de vivenciar esse ritual, a mensagem chegou ao destinatário. Lá na minha infância, tudo que meus avós queriam me dizer, talvez de forma inconsciente, era pra eu não me privar dos pequenos prazeres da vida. Ainda não comprei minha sacola de feira nem meu carrinho de compras, mas tenho a cestinha da bicicleta pra encher com os legumes, verduras e frutas que escolho com calma, aproveitando pra me deliciar com o perfume de tudo que se encontra por lá. Os temperos são minha atração preferida na feira: é só fechar os olhos e tenho de novo 9 anos, estou de mãos dadas com minha avó que conversa com o feirante, enquanto meu avô pede a noz moscada pra temperar seu mingau do próximo sábado. 

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